7.20.2013

Carta para a performance Nós Marilias



Meu amor não se preocupe, estou bem. Um pouco atordoado com minha fobia de multidão, mas felizmente  não houve crise alguma. Sem pânico. Foi uma questão de minutos. Saí de lá antes de estourar a confusão, antes que os cavalos começassem a marchar, que as pedras e bombas se cruzassem no ar, antes que as balas de borracha tatuassem corpos inocentes. Nem senti o cheiro do gás. Um olor diferente, porém, invadiu meu olfato. Caminhava com minha lente registrando os criativos cartazes estendidos. Era um cheiro estranho.  Por um momento me imaginei  sendo um daqueles helicópteros em um voo   rasante sobre aquelas milhares de cabeças. O que se passava naquelas cabeças? Seria o mesmo que estava escrito nas faixas? O cheiro continuava.  Os gritos ecoavam fortes como uma torcida organizada em um estádio de futebol. As luzes dos prédios piscavam e o povo gritava como se comemorasse um gol. Confesso que estava emocionado de estar ali. Mas ao mesmo tempo uma sensação estranha. Talvez fosse aquele  cheiro. Não parava de passar gente, de todas as idades, com sonhos e cartazes de todos os tamanhos. Eu, em meu olhar distanciado mediado pela câmera tentava uma explicação racional para tamanha comoção. Não conseguia distinguir o maldito cheiro... não era gás lacrimogêneo... até pensei que fosse  um misto de lança perfume e naftalina...  ...mas era uma fragrância nova... ...se dúvida tem cheiro, talvez fosse aquele...  ...ou talvez seja esse o cheiro da esperança... ...confesso que ainda não sei. Não se preocupe,  juro que estou bem, saí de lá um pouco antes de toda confusão e fui comer uma pizza. Cheguei em casa a tempo de ver as notícias distorcidas na TV. Beijos! Te amo!