5.29.2009

A vida do vizinho

Eles se viam na TV, um reflexo de suas composições. Seus desejos transitavam entre a realidade e a ficção
Desejo-corpo-imagem

Não despregavam os olhos da luz. Rostos iluminados pela hipnótica caixa de ilusões. Só piscavam no intervalo dos cortes, com uma dinâmica cada vez mais rápida exigindo uma habilidade dos olhos que faziam escorrer lágrimas, numa espécie de purificação do canto esquerdo do glóbulo ocular. Há um mês ganharam a promoção do Sistema de Canais Interativos – uma nova programação para uma vida nova. O novo pacote incluía colírio para os olhos do cliente. Sentaram-se todos num só tempo para o sagrado momento.

A mais velha tinha rosto e busto de mulher, a mocinha tinha medo de taruíra, e sonhava com o matador de dragões, o herói que viria buscá-la na motocicleta com adesivos de tele-entrega. O moleque do meio sentado a ponta do sofá, nada diz, se quer respira, coisa da asma. A mais nova deseja ser grande, na cor dos lábios, no tamanho da saia, na eterna pirraça de criança e chora nos intervalos pela mamadeira. A mãe sonhou ser Merilyn Monroe, agora se contenta com o novo rotulo do xampu. O pai é pai de outras famílias, mas sentava-se nas quintas compondo o sofá da sala da família feliz.

Hora do programa preferido da família escolhida para o teste do sistema. “A Vida do Meu Vizinho” terá outros nomes em outros países. O novo programa incluí câmeras escondidas na casa ao lado. A vida do vizinho por tantos planos, cortes dinâmicos, composições ousadas, trilha sonora original e um novo conceito de interatividade que permite ao espectador escolher o cômodo da casa que quer ver, o que já causa conflitos na hora de decidir quem fica com o controle remoto.
No inicio o enredo era meio sem graça, nada acontecia. Por muito tempo realmente nada acontecia. Sabe-se lá porque as histórias foram costurando um novelinho, cada vez mais enrolado. Sônia amava Walter que amava a empregada que amava Hugo, que tinha um amor secreto. E a novelinha cativando todos os membros da família feliz, mesclando momentos de emoção e suspense.

Heverton o moleque de 13, adorava as cenas do banheiro ou do quarto da empregada. Apesar da classificação, masturbava sua imaginação adolescente nas sessões de tarde.

Beatriz, a mais velha apaixonou-se por Hugo, já no primeiro capítulo. “Nunca tinha reparado, mas o Hugo fica bem na TV”. Estudam no mesmo colégio e na ultima semana Beatriz passou a sentar-se mais próxima de seu mais novo ídolo. Hugo sempre manteve uma paixão escondida por Beatriz, mas o seu vizinho não tinha graça alguma antes de protagonizar o reality show.

Houve um episódio em que Walter, o pai de Hugo, chegou do trabalho cansado e deitou-se no sofá da sala, ali permaneceu por horas lendo seu livro predileto “Paz de Espírito: Como ficar milionário da noite pro dia”. Paulo, pai de Beatriz, saiu mais cedo da fábrica na sexta e passou na banca de usados para comprar seu exemplar. Paulo, acostumado somente ao caderno de esportes, agora exibia orgulhoso o seu mais novo tesouro, tinha nas mãos a chave dos seus sonhos.

A mãe, Marilene, se irritava de vez em quando por não ter outra vizinha para comentar os capítulos, uma das regras de implantação do sistema. Vive criticando a vizinha Sônia, protagonista da casa ao lado, mas chora todas as noites diante do espelho antes de dormir.

O moleque que quase nada dizia gritou numa noite “parece filme”, no que irmã mais velha retruca “mas é vida real”.

No fim de um mês, o grande final. Um dos personagens/vizinhos morreu assassinado, e isso sem sombras de dúvidas, aumenta os índices de audiência. O teste do sistema foi um sucesso.