11.19.2008

FABULEMA

FOTO: Túlio Drumond

Mais de uma vez a noite virou sol


Saciou minha alma
pena dá
de cair por aí
Saci ou minha alma
penada
de caipora

desboto a cor do rosa
olhos viram estrelas
o escuro pira o céu

e a aguá Yara vira som




E aquele dia virou palavra

11.09.2008

Da série: Letra pra sua canção

Aguardo a chuva cair
sobre meu manto negro.
O tempo aqui passou feito gotas ao vento.

E guardo a chuva em mim
como quem guarda um segredo.
O vento aqui passou feito gotas de tempo.

E guardo este instante na memória
história que já sei de cór
a chuva por dentro me molha
traduz meu corpo em suor

8.24.2008

Poeminha para lê-lo

Deixo códigos
pra quem quiser decifrar.

Já era tarde quando lhe deram o aviso final.

Seus olhos reagiram alegres e ele se deixou ir.
Seguiu o itinerário do ponto final ,
sem angústia, sabia que iria retornar.

Quebrem-se os códigos.
O que era lei não será.

A fumaça turvou seus sonhos de agora e já não podia gritar.
Sussurrou um sorriso leve,
de desejo e saudade.
Criem-se novos,
mude tudo de lugar.

Brincou de viver, na ciranda que vai e volta.
Não se cansa de rodar.

E de novo meu signo se rende ao teu olhar
Me veja, me leia, me beija,

sou a letra solta,

soletre um nome qualquer para me identificar.

E a noite partiu como quem

se funde ao breu,
e aguarda um novo amanhecer,
deixando de ser,
para sempre,
o mesmo de ontem.

8.22.2008

Inundo de restos minha rua.
Por onde falham meus pés
existem buracos tão infinitos
que me deixo cair atordoado.
Restos de mim enchem caixas, gavetas, memórias e corações.
Acumulo o mundo nos bolsos e o esqueço ou perco pelos cantos.
Logo levanto e sigo a diante,
vagando em novas trilhas,
tropeçando em resquícios de obras inacabadas.
Poeira amontoada que o tempo engole
e o vento leva daqui pra lá, de lá pra cá...

8.08.2008

A Namoradeira, Janela Virtual ou Olhar alheio


“...Devagar as janelas olham, eta vida besta meu Deus.”
Carlos Drummond de Andrade

Aquela dona saiu da janela.
Cansou da vida dura de olhar a rua passar.
Prefere agora o conforto da sala de estar.
A vista permanece lá.
mas sua janela nunca mais foi a mesma,
nem ela.

se do seu olhar sair o meu
ousaria revelar-te
projetado em sua retina
que tudo que nele brilha
ofusca pensar um dia
em deixar de ser seu

5.22.2008

Enquanto durar o cigarro

Simulo a espera

trago lembranças


construo ficções

invento mentiras

(e quanto dura a vida real?)

a ansiedade vira fumaça

e a guimba salta ao chão


(ainda há tempo?)


Piso em cima,
convencido de que este é o último

5.12.2008

ouvi a luz que incendeia

do resto de vírus que sai da sua boca
do pouco da festa que deixa a luz rouca

devoro teu nome na ceia

me perco nas cores da fala
vejo e cheiro o segredo que cala

injeto mistérios na veia

4.22.2008

Naquela noite, mesmo que do céu pulassem gotas suícidas na tentativa de renascerem em outra vida, não haveria uma única probabilidade, além desta, de se encontrarem e seus olhos se permitirem mais que alguns segundos de revelação. Um relance onde vidas inteiras não se permitem conhecer. Uma luz se aproxima. Eles nunca mais se veriam. Cada um seguiria um curso do rio, desaguando no mesmo, mas caótico mar. Um brincalhão destino fantasiado de acaso pôs-se a dançar em sua frente, rodopiando feito relógio e o deixando minúsculo diante do tempo. Ele olha pro alto e sorri, aceitando sua condição e achando-se o mais nobre dos homens por reconhecer sua ignorância. Ela se foi no último vento. Deixe ir, pensou, quando o farol do carro fez-lhe acordar e continuar a atravessar a rua.

4.08.2008




paisagem trêmula
olhos vorazes
varrem o pensamento
imagem
ofegante de luz
um suspiro no corte
o desejo da pausa
anúncia o clímax
e em um mistério de cores
pálpebras cerram solenes
o instante de sedução

3.25.2008

PENSAMENTOS DE PAPEL

xerox da rua
cópia do cotidiano
no canto da calçada
à margem da vida
obra pulsante
em vias expressas
meu grito alternativo
meio arte
meio fio
minha coleção de poesia independente

3.24.2008

2.12.2008

Levaram-te daqui ou Eu roubei-te pra mim

No passado
usurparam seu ouro
nem bateias
nem peneiras
deixaram de percebê-lo

restaram vales vazios de alma
cheios de fantasmas

e seguem a enxugar
as últimas gotas do teu seio

beijo-te no último suspiro

meu olho brilha futuro
vazio de ressentimentos
cheio de esperanças

2.07.2008

Versinhos de uma prostituta (Processo Rato do Subsolo)

Les demoiselles d'Avign - Picasso
Se me quer chorando, eu choro.
Decoro o texto que quiser.
Posso me fazer de santa,
me fazer de puta
homem ou mulher

Se me quer sorrindo, posso
ter o rosto que quiser.
Gosto no meu lábio trouxe
amargo, azedo, doce,
o sabor que vier

Se me quer morrendo, morro.
Corro o risco que quiser.
Mascara minha face vira,
me visto de mentiras
e digo quanto é.

1.22.2008

memórias roem por dentro
agudo sentimento de vazio e esperança
espera da vida algo maior e vive
a intensa vida de sono
sonhos que se invadem
enganam o tempo
enganam o corpo
e não cabem dentro mim