Belo Horizonte. Nesta tarde de sexta-feira um acidente com vítima fatal provocou um enorme engarrafamento na avenida. Anuncia a manchete do jornal preferido de Pedro. Da marmita o vento sopra um vapor tão quente quanto o dia. Pedro adorava os ventos de agosto. Enquanto isso, o sol no meio do céu já anunciava a fome. Hora de se alimentar e descansar da manhã intensa de trabalho. Britas, areias e cimentos. Os peões contavam piadas. Gargalhadas e arrotos. Num canto sentado, num tamborete de tijolos, Pedro não parava. O tempo, preenchido por um estranho hábito. No lugar da colher, tesoura. Todos os dias. O canto. O tempo. A espera. Pedro a recortar trechos do Diário Popular e guardá-los em seu embornal. Os recortes a tiracolo eram companhia inseparável. Inseparávelhomemeobra. Os peões da obra não compreendiam Pedro. Pedronãocompreendiapedro. Todo intervalo a mesma cena. Pedro. O canto. Gargalhadas, tesoura e arrotos.
Pedro, o pedreiro, sonhou ser poeta. Esperou sentado nos tijolos o dia da sua sorte. Do sonho concreto. Pedro trabalhou a vida inteira levantando concretos. Esperou a vida inteira. Seus recortes avolumaram o embornal. De quando em quando se via Pedro a remontar na mesa concatenações de recortes do jornal. Crime, dor, dinheiro, morte, fama, suor, pedreiro, sorte espalhados pela mesa. Se alguém se atrevia a olhar o que fazia Pedro, imediatamente desfaziam-se as combinações e embaralhados os recortes voltavam ao embornal. Embornal memória ingrata.
Certa vez chegou aos ouvidos de um famoso jornalista a história do pedreiro, o louco que recortava jornais. O louco, Pedro será manchete do jornal. Toca o telefone. O jornalista prometeu o mundo a Pedro. De Pedro, pedreiro, louco de pedra a Pedro, o poeta. O sonho do pedreiro nunca foi tão grande quanto naquele dia. O dia. A sorte. O sonho. Um caleidoscópio de histórias, um mosaico de fragmentos reais transformados em um imenso livro de cimento, um enorme edifício de papel e concreto. Uma instalação de fatos e ficções. De fato era o dia de Pedro. Desta vez no intervalo do almoço Pedro vai até o local marcado para a entrevista. Pedro e o embornal a caminhar pela rua. Um carro. Pedro. Um carro. Pedro. Um descuido. Um carro. E
os
ventos
de agosto
levando
pro
pro
céu recortes
pequeninos
de
pequeninos
de
papel.

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