3.21.2007

Meio assim Entre o futuro e o pretérito



Quando libertarem o princípio
Terão adiado o fim
E reconhecerão no espelho
a face infinita do meio

Ser assim meio sem meio
Meio sem começo nem fim
No meio de tudo e de todos
Ser assim não linear
Feito linha de retroz
Embolando a informação
Forma uma de ser um
Feito os outros como eu

Umbigo Brasilis



Teus soldados estão velhos e loucos
Agora sua gente grita pátria nossa qual será tamem?
Sua gente arrota coca-cola nas propagandas
Teu governo te governa?
Teu governo não é tua gente?
Gente que grita e arrota coca-cola
Um alivio efêmero no estômago do coca-colonizado
Eu colônia do meu ego
Erguerei minha bandeira
No carnaval e no futebol
E cantarei o hino samba enredo:
Meu umbigo, minha pátria!

C ALMA

Um passo de cada vez
Um poço pra cada pulo
Um grito em cada queda
Um suspiro em todo susto
Um sorriso depois das lagrimas
Um amor pra toda vida
Uma vida de cada vez
Quando se amplia o conceito
Efeito vira defeito
Esquerdo vira direito
Tudo que é aquilo e outro jeito
imperfeito modo de ser perfeito
Nó na garganta, enche o peito
Canta e chora
e
dorme agora
sonha com o novo que já foi feito

3.13.2007

?FIM



Atiro pedras e interrogações,
Como se o destino pudesse responder de alguma forma.
Quais são as formas do destino?
Como prever a desordem em detrimento da ordem?
Qual é a ordem do dia?
Um dia novo de velhas vontades alheias?
Vontade de ser outro como no teatro?
Vontade de ser o que eu quero que seja?
Preso em labirintos sou vontade de eu mesmo?
Como calar a voz das opções se nos sobram esquinas?
Quantos são os teatros, quantos são os teus atos, minhas dúvidas?
Como falar de amor sem tocar em espinhos?
Troca de pés e caminhos, quem falou que é amor?
Se te entrego a outros eus me protejo de você?
E se todos somos vários quem de nós será eu?
Quantos fins terão minhas idéias, minhas histórias, meus amores?

Acidente

Raikai
E o rio leva sua alma

dos olhos 1



Vi seus olhos .
Via versos via sons via eu
corpo meu sobre o ar.
Nos meus olhos outros olhos a olhar.
Outros â n g u l o s criando a melodia das imagens.
Dos movimentos da sua pele.
Minha pele é outra pele.
É sua.
E minha arte tua boca, um sorriso em meus ouvidos

Vaidade


Vai idade, transforma-me no senhor do tempo,
deixe-me descobrir o que guardam pra mim.
Lembrar-me de ontem, das drogas de ontem,
do sono de hoje, prever a sorte amanhã.
Mostra-me o belo, o mesmo da loucura
Nazista-narcisista.
Faça-me belo.
Vai idade, deixe-me conquistar o mundo, matar os feios,
cuspir na boca dos pequenos, pisar na alma dos sem almas.
Vai idade e me faz artista, escultor de bombas, conquistador de vidas.
Vai idade, me faça rei da ignorância e depois me mate.
E noutra vida, se esta houver,
Faça-me de novo criança, sempre criança,
E vai idade, vai embora.

Gerúndio


Gerúndio vivia sempre falando,
sempre sonhando e amando o que fazia.
Sonhava ser ator.
E ia sorrindo, o pobre Gerúndio,
sempre aparecendo e todos olhando,
amando o que Gerúndio fazia.
Sob os olhos atentos da platéia,
chegou a hora de Gerúndio.
Cantando, dançando, falando ...
...arrebentando.
E a platéia aplaudindo.
Gerúndio sorrindo, seu sonho ia vivendo
um grande ator, amando o que fazia.
O tempo passando e ele sonhando, enquanto o tempo ia.
Mas o tempo, um pretérito nada perfeito,
fez de Gerúndio passado.
Um ator que havia, falado, cantado, andado, sonhado,
amado o que fazia...
... Agora, esquecido.
Gerúndio até mudou de nome,
Passou a chamar-se Particípio.

Musa - Arte


O olho nu pode ver-te só
Vestida de lua, pintada de céu
Olhando no espelho
Posando de musa
Criando um palco de reflexos obtusos
Onde você, Lua, é o olho
E o olho treme de desejo de ser você
Por isso deténs o poder
Por tua misteriosa beleza
E misturam-se os sentidos
Confundem-te com a vida e te chamam de loucura
E não sabem que ambas te pertencem
Quando do teu seio jorrar a palavra que encerra
Achar-se-á ainda mais bela
Para recomeçar a despir-se para o olho
E se as lágrimas ascenderem
Arrancarás o suspiro ofegante
De quem se entrega ao feitiço da fêmea
E devorarás aquele olho
Para fazê-lo renascer

Poesia e concreto


Belo Horizonte. Nesta tarde de sexta-feira um acidente com vítima fatal provocou um enorme engarrafamento na avenida. Anuncia a manchete do jornal preferido de Pedro. Da marmita o vento sopra um vapor tão quente quanto o dia. Pedro adorava os ventos de agosto. Enquanto isso, o sol no meio do céu já anunciava a fome. Hora de se alimentar e descansar da manhã intensa de trabalho. Britas, areias e cimentos. Os peões contavam piadas. Gargalhadas e arrotos. Num canto sentado, num tamborete de tijolos, Pedro não parava. O tempo, preenchido por um estranho hábito. No lugar da colher, tesoura. Todos os dias. O canto. O tempo. A espera. Pedro a recortar trechos do Diário Popular e guardá-los em seu embornal. Os recortes a tiracolo eram companhia inseparável. Inseparávelhomemeobra. Os peões da obra não compreendiam Pedro. Pedronãocompreendiapedro. Todo intervalo a mesma cena. Pedro. O canto. Gargalhadas, tesoura e arrotos.
Pedro, o pedreiro, sonhou ser poeta. Esperou sentado nos tijolos o dia da sua sorte. Do sonho concreto. Pedro trabalhou a vida inteira levantando concretos. Esperou a vida inteira. Seus recortes avolumaram o embornal. De quando em quando se via Pedro a remontar na mesa concatenações de recortes do jornal. Crime, dor, dinheiro, morte, fama, suor, pedreiro, sorte espalhados pela mesa. Se alguém se atrevia a olhar o que fazia Pedro, imediatamente desfaziam-se as combinações e embaralhados os recortes voltavam ao embornal. Embornal memória ingrata.
Certa vez chegou aos ouvidos de um famoso jornalista a história do pedreiro, o louco que recortava jornais. O louco, Pedro será manchete do jornal. Toca o telefone. O jornalista prometeu o mundo a Pedro. De Pedro, pedreiro, louco de pedra a Pedro, o poeta. O sonho do pedreiro nunca foi tão grande quanto naquele dia. O dia. A sorte. O sonho. Um caleidoscópio de histórias, um mosaico de fragmentos reais transformados em um imenso livro de cimento, um enorme edifício de papel e concreto. Uma instalação de fatos e ficções. De fato era o dia de Pedro. Desta vez no intervalo do almoço Pedro vai até o local marcado para a entrevista. Pedro e o embornal a caminhar pela rua. Um carro. Pedro. Um carro. Pedro. Um descuido. Um carro. E
os
ventos
de agosto
levando
pro
céu recortes
pequeninos

de
papel.